quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Cocaína - Por Aleister Crowley - parte I




I


De todas as Graças que crescem sobre o trono de Vênus, a mais tímida e ardilosa é essa donzela que os mortais chamam Felicidade. Nenhuma é tão avidamente procurada; nenhuma é tão difícil de conseguir. De fato, somente os santos e os mártires, normalmente desconhecidos pela humanidade, a encontraram; alcançaram-na fundindo neles mesmos o sentido do Ego com o aço incandescente da meditação, dissolvendo-se naquele divino oceano da Percepção cuja espuma é calma e de perfeita felicidade.

Para os outros, a Felicidade surge somente de forma casual; quando menos é procurada, talvez apareça. Buscareis sem encontrá-la; perguntareis, e não obtereis resposta; golpeareis, e não se abrirá diante de vós. A Felicidade é sempre um acidente divino. Não é uma qualidade definida; é a plenitude das circunstâncias. É inútil mesclar seus ingredientes; na vida, os experimentos que a produziram no passado podem se repetir indefinidamente, com destreza e variedade infinitas - em vão.

Que uma entidade tão metafísica possa se produzir em um momento, e não por meio da sabedoria ou de uma fórmula mágica, mas por uma simples erva, parece algo mais do que um conto de fadas. O mais sábio dos homens não pode aumentar a felicidade de outros, ainda que lhes conceda juventude, beleza, abundância, saúde, juízo e amor; o mais baixo vilão, tremendo em farrapos, destituído, doente, velho, covarde, estúpido, um mero brejo de cobiça, pode tirá-la rapidamente como um sopro. A coisa é tão paradoxal quanto a vida e tão mística
quanto a morte.

Olha esse reluzente montinho de cristais! Eles são Cloridrato de Cocaína. Para o geólogo parecerá mica; paramim, o alpinista, elas são como flocos de neve, alados e resplandecentes, que florescem especialmente ali onde as rochas sobressaem do gelo das fendas das geleiras e há aqueles que o vento e o sol beijaram e se converteram em espectros. Para aqueles que não conhecem as grandes montanhas, eles podem sugerir a neve que centelha entreas árvores em casulos de luz e brilho. O reino das fadas possui tais jóias. Para aquele que as prove em seu nariz – seus acólitos e escravos – devem parecer como o orvalho do alento de algum grande demônio da Imensidão congelado em sua barba pelo frio.

Nunca houve um elixir mágico tão instantâneo quanto à cocaína. Dê isso não importa a quem, escolha o último fracassado da terra; deixa que ele sofra todas as torturas da enfermidade; arrebata dele toda a esperança, fé e amor. Então olha, observa o dorso da mão cansada, a pele descolorida e enrugada, talvez inchada por algum czema agonizante, talvez putrefata por alguma chaga maligna. Que coloque sobre ele essa neve reluzente, só uns poucos grãos, um montinho de pó estrelado. O braço consumido se levanta lentamente até a cabeça, que é pouco mais que uma caveira; a respiração débil absorve esse pó radiante. Agora devemos esperar. Um minuto - talvez cinco.

Então sucede o milagre dos milagres, tão certo quanto à morte, mas tão imperioso como a vida; algo ainda mais milagroso, por ser tão súbito, tão distante do curso normal da evolução. Natura non facit saltum – a natureza nunca dá um salto. Certo - e, por conseguinte, este milagre parece contra a natureza. A melancolia desaparece; os olhos brilham; a boca triste sorri. Quase retorna o vigor viril, ou parece retornar. Quanto menos acodem a fé, a esperança e o amor para a dança; tudo o que foi perdido é encontrado.

O homem é feliz.

Para um indivíduo a droga pode trazer vivacidade, para outro, languidez; a outro força criativa, a outra energia incansável, a outro encanto e a outro mais concupiscência. Mas cada um é feliz a sua maneira. Pensa nisso!
Tão simples e tão transcendental! O homem é feliz!

Viajei por cada canto do mundo; vi tais maravilhas na Natureza que minha pena ainda crepita quando tento retratá-las; vi muitos milagres que surgiram do gênio do homem; mas nunca vi uma maravilha como essa.

Continua ...

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