domingo, 21 de agosto de 2011

Iniciação






Iniciação 

Por Fernando Pessoa 


Não dormes sob os ciprestes

Pois não há sono no mundo.



O Corpo é a sombra das vestes

Que encobrem teu ser profundo.


Vem a noite, que é a morte,

E a sombra acabou sem ser,

Vais na noite só recorte,

Igual a ti sem querer.


Mas na Estalagem do Assombro

Tiram-te os Anjos a capa.

Segues sem capa no ombro,

Com o pouco que te tapa.


Então os Arcanjos da Estrada

Despem-te e deixam-te nú.

Não tens vestes, não tens nada:

Tens só teu corpo, que és tu.


Por fim, na funda caverna,

Os deuses despem-te mais.

Teu corpo cessa, alma externa,

Mas vês que são teus iguais.


A sombra das tuas vestes

Ficou entre nós na sorte.

Não estás morto, entre ciprestes.


Neófito, não há morte.



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