terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cocaína - Por Aleister Crowley - parte II

Não há uma escola de filósofos, fria e cínica, que considera Deus um enganador? Que pensa que Ele se satisfaz no desprezo da insignificância de suas criaturas? Deveriam basear suas teses na cocaína! Aqui jaz uma amargura, uma ironia e uma crueldade inefáveis. Este presente da felicidade repentina e segura é dado para atormentar na tentação. A história de Job não contém nenhum traço tão azedo. O que seria mais friamente odioso, uma cena de espírito mais desalmado, que oferecer tal dádiva e dizer “Não deveis usar”?

Não poderiam nos deixar afrontar as misérias da vida, más como são, sem esta angústia primordial de conhecero gozo perfeito ao nosso alcance, e o preço dessa alegria multiplicado por dez de nossa angústia? A felicidade da cocaína não é passiva ou serena como a das bestas; é consciente de si mesma. Diz ao homem o que ele é, e o que poderia chegar a ser; oferece ao homem a semelhança da divindade, ainda que ele saiba que é um verme. Desperta um descontente tão agudo que nunca voltará a dormir. Cria fome. Dá a cocaína para um homem já sábio, instruído no mundo e de força moral, a um homem com inteligência e autodomínio. Se realmente é dono de si mesmo, não lhe fará nenhum dano. Saberá que é uma armadilha; ele terá cuidado em repetir tais experimentos como poderia fazer; e possivelmente o vislumbre de seu objetivo pode inclusive lhe incentivar em seu logro por aqueles meios que Deus designou para Seus santos. Mas dá isso ao estúpido, ao homem indulgente consigo mesmo, ao que está entediado – para o homem comum, em uma palavra – e ele está perdido. Ele dirá, com lógica perfeita: “Isto é o que Eu quero”. Ele não sabe nada, nem poderia saber, sobre o caminho verdadeiro; e o caminho falso é o único que ele vê. Necessita de cocaína, e toma outra vez e outra vez. O contraste entre sua vida de larva e sua vida de borboleta é demasiado amargo para que sua alma pouco filosófica suporte; ele se recusa em tomar o enxofre com o melaço. E dessa maneira ele já não pode tolerar os momentos de infelicidade, ou seja, da vida normal, porque é assim como agora ele a considera. Os intervalos entre seus prazeres diminuem.E ai! O poder da droga diminui a passos aterradores. As doses aumentam; os prazeres diminuem. Os efeitos secundários, invisíveis no princípio, se apresentam; são como diabos com tridentes flamejantes em suas mãos.

Usar um pouco da droga não traz reações perceptíveis em um homem saudável. Ele vai para a cama quando der ahora, dorme bem e acorda descansado. Os índios sul-americanos mascam essa droga em sua forma primitiva durantesua marcha a pé e conseguem prodígios desafiando a fome, a sede e o cansaço. Mas a utilizam somente como último recurso; afinal, um descanso prolongado e comida abundante permitem que o corpo se recupere. Também ocorre que os selvagens, diferentes da maioria dos habitantes das cidades, possuem mais força e senso moral.Pode-se dizer o mesmo de chineses e hindus sobre o uso do ópio. Todos o utilizam, e só em raros casos que seu uso se converte em vício. Para eles é como o nosso tabaco.

Mas quem abusa da cocaína por prazer, logo ouve a voz da natureza; e se não a escuta os nervos se cansam do estímulo constante, necessitam de descanso e de alimento. Existe um ponto no qual o cavalo esgotado não responde a nenhum chicote e a nenhum estímulo. Tropeça, cai e arqueja seu último suspiro de vida.

Assim perece o escravo da cocaína. Com cada nervo clamando, tudo o que pode fazer é renovar o golpe doveneno. O efeito farmacêutico acabou; mas o efeito tóxico se acumula. Os nervos enlouquecem. A vítima começa a ter alucinações. “Olha! Há um gato cinza naquela cadeira. Não havia dito nada, mas esteve aí o tempo todo.”

Ou então aparecem ratos. “Encanta-me vê-los subindo pelas cortinas. Ah, sim! Já sei que não são ratos de verdade. Ainda que esse aí no chão seja real. Uma vez quase o matei. Esse é o que vi primeiro; é um rato de
verdade. No princípio o vi no peitoril da janela numa noite.”

Tal é a mania dele. E o prazer passa logo, seguido por seu contrário, como Eros por Anteros.

“Oh, não! Nunca se aproximaram tanto”. Passam alguns dias e já se arrastam sobre a pele, roendo intoleravelmente, sem parar, repugnantes e inexoráveis.

É desnecessário descrever o final, prolongado como este pode ser, porque apesar da desconcertante destreza desenvolvida pelo desejo da droga, o estado demente paralisa o paciente. Sua abstinência durante uma temporada, muitas vezes forçada, está longe de apaziguar os sintomas físicos e mentais. Então ele procura uma nova provisão da droga, e com zelo decuplicado o maníaco, tomando o bocado entre os dentes, galopa pela margem negra da morte.

Todos os tormentos da condenação vêm antes que essa morte chegue. O sentido do tempo está destruído, de modo que uma hora de abstinência pode reservar mais horrores que um século de dor ligado ao tempo e ao espaço.

Os psicólogos pouco entendem de como o ciclo fisiológico da vida, e a normalidade do cérebro, tornam a existência insignificante tanto para o bom como para o mau. Para compreender isso, priva-se um dia ou dois; vê como a vida arrasta uma dor subconsciente constante. Com fome de droga, este efeito se multiplica por mil. O tempo mesmo é abolido. O verdadeiro inferno eterno metafísico está realmente presente na consciência, que perdeu seus limites sem encontrar Aquele que não tem limite.

Grande parte disso já é bem sabida; o senso dramático me força a enfatizar o que já se conhece comumente,a causa da dimensão da tragédia – ou da comédia, se tivéssemos essa capacidade de nos distanciarmos do humano, que atribuímos somente aos homens grandiosos, aos Aristófanes, os Shakespeares, os Balzacs, os Rabelais, os Voltaires, os Byrons, esse poder que faz os poetas ora compassivos das aflições dos homens, ora alegremente depreciativos de seu desconcerto.

Mas eu deveria destacar mais sabiamente o fato de que os melhores homens podem utilizar essa droga – e
muitas outras – com benefícios para si mesmos e para a humanidade. Somente a usariam para realizar grandes trabalhos que não poderiam fazer sem ela, como os índios de quem falava acima. Cito Herbert Spencer como exemplo, que tomava morfina, nunca excedendo certa dose prescrita. Wilkie Collins também superou a agonia de sua gota reumática com láudano e nos deu obras mestras não superadas. Alguns foram demasiadamente longe. Baudelaire se crucificou, em corpo e mente, em seu amor pela humanidade; Verlaine se converteu no final em escravo, quando havia sido tanto tempo o amo. Francis Thompson se matou com ópio, da mesma forma que Edgar Allan Poe. James Thomson fez o mesmo com o álcool. Os casos de De Quincey e H.G. Ludlow são menores, mas similares, usando respectivamente láudano e haxixe.

O grande Paracelso, que descobriu o hidrogênio, o zinco e o ópio, empregou deliberadamente o álcool comoexcitante, compensando-o com exercícios físicos violentos, para fazer aflorar as energias de sua mente.

Coleridge deu o melhor de si sob influência dos efeitos do ópio, e devemos a perda do final de Kubla Khan à interrupção de um “importuno homem de Porlock”, maldito seja para sempre na história da raça humana!



2 comentários:

Anônimo disse...

muito inteligente e interessante

Anônimo disse...

Isso é do Aleister mesmo? Forte e como o amigo falou acima muito inteligente. Não tenho um julgamento sobre ele, mas já ouvi, vi e li tanta difamação. Dele é uma das manhas sentenças preferidas "Todo irmão é uma estrela, toda irmã é uma estrela"
Vou pesquisar mais. Valeu!