terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cocaína - Por Aleister Crowley - parte III


Considera o débto da humanidade para com o ópio. Estaria ele absolvido pela morte de alguns perdidos devido ao seu abuso?
A importância deste ensaio firma-se na discussão da pergunta prática: As drogas deveriam ser acessíveis ao público?
Aqui me detenho brevemente para pedir a indulgência do povo americano. Vejo-me obrigado a defender um ponto de vista surpreendente e impopular. Sou compelido em proferir certas verdades terríveis. Estou naposição pouco invejável de quem pede para que os outros fechem os olhos ao particular para que assim possam visualizar o geral.
Creio eu que em matéria de legislação, a América está procedendo em geral sobre uma teoria inteiramente falsa. Creio que a moralidade construtiva é melhor que a repressão. Creio que a democracia, mais do que qualquer outra forma de governo, deve confiar nas pessoas, como especificamente finge fazer.

Agora me parece oportuno usar táticas melhores e mais convincentes para atacar a teoria contrária em seu ponto mais forte.Para isto deveria ser mostrado que nem mesmo no caso mais discutível está um governo justificado em restringir o uso, como se essa fosse a causa do abuso; ou, admitindo esta justificação, discutamos sobre sua utilidade.

Assim à questão: as drogas “que produzem hábito” deveriam ser acessíveis ao público?

A questão é de interesse imediato, porque o admitido fracasso da Lei Harrison deu origem a uma nova

proposição - uma que faz pior. Não argumentarei aqui sobre a magnífica tese da liberdade. Os homens livres decidiram há muito tempo. Quem manterá que o voluntário sacrifício da vida de Cristo foi imoral porque privou o estado de um útil contribuinte?

Não; a vida de um homem pertence a ele mesmo, e ele tem direito de destruí-la como queira, a menos que ele se intrometa ostensivamente nos privilégios de seus vizinhos.

Mas justamente essa é a questão. Nos tempos modernos a comunidade inteira é nossa vizinha e não devemos prejudicá-la. Muito bem; então há prós e contras, e um equilíbrio a determinar.

Na América a idéia da proibição de todas as coisas é transmitida, majoritariamente por periódicos histéricos, até um extremo fanático, “sensação a qualquer custo até domingo” é o equivalente na maioria das salas editoriais da alegada ordem alemã para capturar Calais. Conseqüentemente os perigos de todas e cada uma das coisas são celebradas ditirambicamente pelos Coribantes da imprensa, sendo a proibição o único remédio. O Sr “A” dispara um revolver contra o Sr “B”; remédio: a lei de Sullivan. Na prática isto funciona bem, porque a lei não se faz cumprir contra o chefe de família que tem um revolver para se proteger, mas é uma arma prática contra o gangster e economiza o trabalho da polícia em provar a intenção criminosa.

Mas essa é a idéia incorreta. Recentemente um homem disparou um rifle equipado com silenciador Maxim contra sua família e contra si mesmo. O remédio: uma lei para proibir os silenciadores Maxim! Sem perceber que se o homem não tivesse arma alguma ele teria estrangulado sua família com as próprias mãos. Os reformadores americanos parecem não ter idéia de que, em qualquer época ou com respeito a qualquer coisa, que o único remédio para o errado é o certo; que a educação moral, o autodomínio, os bons modos, salvarão o mundo; e que a legislação não é simplesmente uma coisa inútil, e sim um vapor sufocante.

Além disso, um excesso de legislação ocasiona a derrota de seus próprios fins. Criminaliza a população inteira e converte todos em policiais e delatores. A saúde moral do povo assim está arruinada para sempre; somente a revolução pode salva-lo.

Agora, na América, a lei de Harrison faz teoricamente impossível para o leigo, difícil inclusive para o médico,
obter “drogas narcóticas”. Mas quase cada lavanderia chinesa é um centro de distribuição de cocaína, morfina e heroína. Negros e vendedores andarilhos também fazem um comércio ambulante. Alguns calculam que uma a cada cinco pessoas em Manhattan é viciada em uma ou outra dessas drogas. Apenas posso crer nesta estimativa, apesar de que a busca por distração é maníaca entre essas pessoas que tem tão pouco apreço pela arte, pela literatura ou pela música, pessoas que não têm nenhum dos recursos que os povos de outras nações possuem em suas mentes cultivadas.




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